Pai Mãe Irmã Irmão

Pai Mãe Irmã Irmão

Jim Jarmusch está de volta com seus personagens excêntricos, o seu humor afiado e um grande elenco

Minha história de fã do Jim Jarmusch é longa. Começou lá em 1991 quando vi Uma Noite sobre a Terra. Aquele apanhado de histórias de taxistas em pontos aleatórios do mundo, ligados por alguns traquejos e pequenas frases e situações semelhantes, me encantou. Depois disso acompanhei absolutamente tudo que pude dele, comprava os DVDs dos filmes, ia a sessões especiais, como uma de Amantes Eternos (2013) ao ar livre, num final de tarde de verão, nos arredores do Potsdamer Platz em Berlim.

A conexão de Jarmusch com música -e músicos – dialogava diretamente comigo. Antes do cinema, a música foi meu primeiro amor. Vi filmes como Sobre Café e Cigarros (2003) tantas vezes que já antecipava as falas antes dos atores. Jim, para mim, era a personificação da cultura da juventude da geração X, entre os anos 90 e início dos 2000. A tendencia de Jarmusch de representar na tela pessoas à margem da sociedade, que nadam contra a maré e que se destacam pelas suas atitudes excêntricas, me atraia demais. Identificação? Possivelmente.

Adam Driver e seus personagens excêntricos.

Retorno ao fragmentado

No seu mais novo filme, Pai Mãe Irmã Irmão (2025), Jim Jarmusch volta a nos oferecer aquele tipo de filme em episódios onde parece que não tá acontecendo nada, mas quando a gente vê, já tá fisgado. Quem curte o estilo dele, principalmente de seus filmes dos anos 90, vai se sentir em casa. É tudo meio parado, sem pressa, sem grandes acontecimentosou plot twists. Jim gosta mais da atmosfera do que da narrativa.

O filme é dividido em três partes, cada uma focada em relações familiares de primeiro grau. São lugares diferentes e pessoas diferentes, mas sempre na mesma vibe: gente tentando se conectar e falhando muito na tarefa. É um filme sobre silêncio, clima e desconforto cheio daquelas conversas meio truncadas, pausas longas, olhares que dizem mais que diálogo.

A base é bem parecida com a de Sobre Café e Cigarros: muito papo – ou falta dele – humor seco, situações meio estranhas. Só que aqui o tom é outro. O filme de 2003 é mais irônico, mais “cool”, quase uma coleção de sketches. Esse novo é mais maduro, mais profundo. Os personagens têm mais peso, mais bagagem. Aqui Jim não tá tentando ser estiloso, tá tentando ser sincero. Aquelas coisas que a gente passa a expressar com o amadurecimento.

Cate Blanchett em um papel mais silencioso

As estrelas continuam no céu de Jim

Visualmente também dá prá gente notar algumas diferenças. A direção continua simples, mas é um simples mais caprichado. Tudo parece mais pensado, mais redondo. Não tem cara de cenas soltas, tem cara de filme fechado. Mesmo que a crítica tenha reclamado da falta de profundidade. 

No elenco recheado de estrelas temos Adam Driver, fazendo aquele tipo de personagem meio tenso, meio deslocado, que ele sempre faz bem.  A sempre excelente Cate Blanchett vem bem mais contida do que o normal, quase sumindo no silêncio das cenas. E o muso recorrente de Jim, Tom Waits, aparece com aquela presença de sempre, como se já fosse parte do universo do filme. Ninguém tenta roubar a cena, não tem overacting, tudo fica num tom baixo. A trilha, feita pelo próprio Jarmusch, segue o mesmo caminho: discreta, meio flutuando, só ajudando no clima sem chamar atenção e sem tomar o protagonismo – o que já marcou seus filmes no passado.

Agora preciso avisar: esse não é um filme pra todo mundo. Ele é lento, não tem uma narrativa tradicional ou conexão entre seus atos nem grandes surpresas. Tem momentos que funcionam mais que outros. Quem não conseguir comprar a viagem de Jarmusch, corre o risco de se entediar. Mas no geral, acho que o filme funciona bem. É aquela obra que parece meio vazia, mas que depois a gente percebe que ficou pensando nela, ou pelo menos relacionando com as próprias experiencias familiares.

No fim, Pai Mãe Irmã Irmão parece uma versão mais madura do que o Jarmusch já fez lá atrás. Se antes seus filmes se contentavam em observar gente esquisita conversando, esse aqui é mais sobre tentar entender essas pessoas.

Lançado em 2025 e completamente ignorado pelo chefão de Cannes, e outrora aliado, Thierry Fremaux, o filme estreou no Festival de Veneza em 2025 e levou o Leão de Ouro. No Brasil ele chega aos cinemas no dia 09 de abril de 2026

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