O Outro Lado das Redes

O Outro Lado das Redes

Sequência de “A Rede Social” traz panorama importante do mundo atual, mas derrapa na forma como faz isso.

Eu nunca fui o maior fã de A Rede Social. Eu gosto, sim, do filme, mas mais pelo trabalho de direção do ótimo David Fincher do que pelo roteiro, do festejado Aaron Sorkin.

Acontece que Sorkin costuma criar personagens muito verborrágicos, que acabam soando muito parecidos, robotizados, pasteurizados. Eu tenho essa sensação, por exemplo, em Jobs, claro, em A Rede Social, e no novo O Outro Lado das Redes, que passou pela Mostra de São Paulo e chega aos cinemas do Brasil no dia 22 de outubro.

Aqui, tanto o roteiro quanto a direção são de Aaron Sorkin e, sem uma mão firme como a de Fincher, o filme acaba tendo mais problemas.

Horowitz (Allen White), visto como inimigo dentro do Facebook. (Imagem: divulgação)

Uma leitura do mundo atual

Em O Outro Lado das Redes, nós vamos para 2019, cerca de 15 anos depois dos eventos do filme anterior, com o Facebook já sendo utilizado por bilhões de pessoas e valendo mais de 1 trilhão de dólares. Nesse contexto, o repórter Jeff Horwitz (Jeremy Allen White) chega ao Wall Street Journal (WSJ) para investigar práticas escusas da empresa. E quem vai ajudar ele, lá de dentro, é a sonhadora, porém inconformada, Francss Haugen (Mikey Madison).

Pensado de forma episódica, ainda que isso pouco acrescente à narrativa, o filme, que retrata fatos reais, vai saltando em uma linha do tempo entre os anos de 2019, 20 e 21, mostrando a investigação, um dia na vida de Mark Zuckerberg (Jeremy Strong) e a audiência pública no congresso dos EUA na qual o Facebook foi passado a limpo.

Usando fatos como a invasão ao Capitólio, mais informações de documentos internos, o filme traça um panorama sobre como o extremismo foi sendo disseminado entre as pessoas em favor de dinheiro e poder. É uma mensagem bastante importante nos dias em que vivemos. Sim, chega tarde, mas a intenção é sempre aprender para não repetir, certo?

Zuckerberg treinando para ser questionado pelo congresso. (Imagem: divulgação)

A derrapada na forma

É uma pena que Aaron Sorkin ainda não tenha conseguido se estabelecer na direção. O filme tem questões como, por exemplo, uma fixação por pés. Tem umas sequências de vários pés andando juntos que são muito deslocadas, ainda que dê pra imaginar do que se trata. E tem os pés da Frances, que começam fora do chão quando nós a conhecemos e, mais para frente, há um foco nos pés dela no chão, que é literalmente o que o filme quer dizer.

Mas mais problemático é o roteiro. Primeiro, pelo excesso de diálogos verborrágicos e truncados, são várias informações técnicas jogadas muito rápido e com diversas coisas acontecendo ao mesmo tempo. Frances até dá algumas mastigadas para Horowitz (e para nós), ainda assim, é excessivo.

O roteiro também tem diálogos forçados e, pior ainda, em todo restaurante tem alguém falando do Facebook e trazendo informações importantes. Está certo que exposição direta é ruim, mas calma, né?

E o filme não sabe lidar com a pandemia, que é um fator que está dentro do recorte escolhido. Sorkin faz coisas interessantes, como mostrar como alguns locais usam máscara e outros não, o que exemplifica como cada um pensa e opera, mas logo esquece disso e parece que não existe mais nada sobre a Covid.

Frances (Madison) e Horowitz (Allen White) na busca pelos fatos. (Imagem: divulgação)

Atuações irregulares

Aaron Sorkin também não consegue muito destaque na direção de atores. Ele tem em mãos como protagonista Mikey Madison, no seu primeiro papel após vencer o Oscar de Melhor Atriz por Anora (é…). E a expectativa de ela voltar às premiações acaba derretendo diante de uma personagem que é tipicamente de Sorkin, soa e se comporta como um robô. É extremamente caricata para uma personagem baseada em uma pessoa real.

Já o Mark Zuckerberg de Jeremy Strong tem o mérito de parecer ter sido criado a partir do que o Jesse Eisenberg fez em A Rede Social. E Strong consegue ir bem no trabalho de transmitir uma pessoa extremamente detestável e até transparece o que ele está sentindo diante das situações e decisões que precisa tomar. Zuckerberg parece sentir um poder divino e Strong consegue passar isso. Mas, ele tem pouco tempo de tela e a distância física para Zuckerberg causa uma estranheza.

Jeremy Allen White, acaba sendo o destaque do filme, especialmente porque o seu personagem é o único que age como uma pessoa que parece ser de verdade. E destaque rápido para Bill Burr, que tem um papel importante para chacoalhar as coisas. E para a assessora interpretada pela ótima Wunmi Mosaku, que tem que lidar com uma situação que é difícil ter dinheiro que pague.

O Outro Lado das Redes acabou me fazendo gostar mais de A Rede Social. E, apesar do resultado irregular, o filme traz uma mensagem que definitivamente não pode ser ignorada e que explica muito do que nós estamos vivendo no mundo e no Brasil hoje.

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