Quem já dividiu o quarto com irmão sabe que o convívio diário pode ser difícil, que qualquer coisinha pode virar uma briga enorme. Imagina então dividir o trabalho, sendo esse em uma das maiores bandas do mundo e viajando juntos por meses seguidos. E isso em meio a uma gigantesca briga de egos, porque se tem algo que Noel e Liam Gallagher nunca esconderam é que eles se acham e muito. Mas, não dá para dizer que eles não têm alguma razão. O Oasis chegou mesmo ao topo do mundo e essa parte da história, que vai da formação até o fim da banda, foi bem contada no ótimo documentário “Oasis: Supersonic”, de 2016.
Mas, dez anos são muito tempo, o mundo dá muitas voltas, a água passa por baixo da ponte, o amadurecimento vem e, em 2025, a paz voltou a reinar na família Gallagher e o que parecia impossível aconteceu: o Oasis voltou aos palcos para mais uma turnê mundial, extremamente bem-sucedida. E é justamente esse processo, juntamente com o que antecedeu o retorno, que nós vemos em “Oasis: Don’t Look Back in Anger”, que chega em 10 de setembro aos cinemas.

O documentário, que tem roteiro de Steven Knight (de “Spencer” e “Peaky Blinders”) e direção de Will Lovelace e Dylan Southern, abre com uma rápida recapitulação do que levou ao fim, com uma interessante imagem filmada por alguém no público do show em Paris, em 2009, no qual a banda terminou instantes antes de subir ao palco por uma grande briga dos dois principais integrantes nos camarins.
Por algum motivo, as investidas solos dos irmãos são ignoradas, assim como as inúmeras provocações feitas durante os anos entre os Gallagher (o Liam no X, ex-Twitter, é particularmente engraçado nesse sentido). São questões que poderiam enriquecer a história, mas talvez o envolvimento direto dos dois tenha pesado por um lado mais chapa branca. Mas não que chegue a prejudicar, até porque o documentário sobre a briga é o outro.

E a partir daí o que parece é que vamos acompanhar de forma episódica o processo do retorno, começando pelos ensaios. E é bem curioso observar como a dinâmica entre Noel e Liam começa aí e como termina ao fim da turnê; como as personalidades parecem começar em choque, mas vão se amenizando e se integrando com o passar do tempo, ao ponto de ouvirmos ao final declarações muito difíceis de se imaginar quando o Oasis estava no seu auge.
E também é interessante que o documentário não mantém totalmente o formato episódico. Em vez disso, vai destacando diversos países pelos quais a turnê passou para poder puxar temas. Como o Brasil, que tem um bom destaque, nem tanto por ter sido o local do último show, mas para que os irmãos possam expressar a importância do guitarrista Paul “Bonehead” Arthur para o Oasis.

E, claro, tudo isso é permeado pelo excelente repertório que a banda tocou durante a turnê e com uma montagem com momentos inspirados, nos quais são costuradas em uma mesma música imagens de diversos locais e, em alguns deles, de linhas do tempo diferentes.
“Oasis: Don’t Look Back in Anger” traz muitos momentos e depoimentos de fãs da banda, emocionados por uma reunião que parecia impossível. Eu sou um deles, nunca neguei que sou um oasisete de carteirinha e estive em um dos shows da turnê no Brasil. Para quem também é, o documentário é uma boa forma de celebrar e relembrar esse momento. Mesmo para quem não seja, é uma chance de ver uma banda que já esteve entre as maiores do mundo mostrando que o rock realmente não está morto. E, se nada disso interessar, dá para ir pela história dos dois irmãos que pareciam fadados ao afastamento, mas que puderam se reencontrar.

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