Uma vez eu estava viajando de avião e a pessoa ao meu lado teve um problema com o fone de ouvido e chamou a aeromoça. Ela veio, eu fiquei entre as duas e senti que a voz da pessoa tinha sido meio baixa e fui repetir para a aeromoça, que me respondeu com o “EU SEI” mais grosseiro que eu já ouvi na minha vida. Mas, ela fez isso com um dos maiores sorrisos de simpatia que eu também já vi na vida.
Eu lembrei dessa história porque, assim como o sorriso da aeromoça, O Último Azul não é nada do que aparenta a princípio. O filme, dirigido pelo pernambucano Gabriel Mascaro (de Boi Neon), e escrito por ele juntamente com Tibério Azul, traz uma distopia na qual o humor mascara a crueldade.
No filme, nós acompanhamos a história de Tereza (Denise Weinberg), que aos 77 anos vive em um Brasil no qual, aos 80, os idosos são obrigados a se retirar a uma colônia onde podem aproveitar com conforto o fim da vida. O lema do governo, defensor da família, é “O futuro é para todos”. Casas de idosos próximos de irem para a colônia são decoradas com ramos dourados, oficiais do governo os condecoram como “orgulhos da nação”, modelos idosos aparecem em outdoors, parece realmente um mundo no qual a terceira idade venceu. Mas, só parece.

O outro lado da moeda
Não demora para vermos qual é a verdadeira motivação ali e é um discurso muito fácil de enxergar na boca de vários políticos que vivem na nossa realidade.
Mas, a velhice sempre vem e deve ser inevitável chegarmos à conclusão de que ainda temos sonhos a realizar. E é isso que inquieta Tereza e a coloca em uma jornada para viver um último desejo antes de ser levada para a colônia. No caminho, Tereza viaja por um mundo onde ter cabelos brancos é um crime e passa por vários locais e diversas pessoas que acabam transformando a sua visão sobre a vida ou o fim dela, ou seja, a viagem de Tereza é tanto externa quanto interna.
E é bonito, com vários momentos engraçados, acompanhar Tereza lidando com animais raros, rinhas improváveis e um veículo com um nome hilário. Muito disso vem do ótimo trabalho da veterana Denise Weinberg, que conta com bons coadjuvantes, como Rodrigo Santoro e Miriam Socarrás.

A Amazônia brilha em tela
O filme também se aproveita da linda fotografia de Guillermo Gaza. É exibido no formato 4:3, que condiz com a sensação de confinamento de Tereza, mas também passa a impressão de uma foto, um clique daquele momento. E a fotografia também valoriza bastante as belas locações na Amazônia por onde Tereza faz a sua jornada.
Cheio de boas tiradas sobre aquele mundo de fantasia, O Último Azul traz esse estudo de personagem para deixar bem claro que o curso da vida, assim como o dos rios, é capaz de se adaptar ao que vem pela frente. E não existe idade para ir atrás da sua liberdade de ser e fazer o que quiser.
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