Em seu belo segundo longa, a diretora franco-argelina Mounia Meddour conta a história de transformação da dançarina Houria, interpretada por Lyna Khoudri, onde a linguagem corporal e os silêncios tomam o lugar dos diálogos. A cena de abertura nos apresenta a personagem principal dançando no terraço de um prédio como se ela flutuasse no céu argelino com um falso silêncio, pois não ouvimos a música que ela dança, apenas os sons do vento, da natureza, dos pássaros, da cidade. A primeira pista da mensagem do filme e sua atmosfera é entregue: a importância do silêncio para nos fazer prestar atenção no que está ao nosso redor, no mundo, nos outros, nos movimentos.
Durante a manhã Houria é uma bailarina; à tarde trabalha como camareira, assim como sua melhor amiga Sônia – duas mulheres com formação universitária, mas sem oportunidades. Cada qual tem um sonho: Sônia quer ir embora para a Espanha em busca de uma vida melhor, mesmo que seja de maneira ilegal, e Houria sonha em conquistar uma grande oportunidade no balé em uma apresentação.
Em oposição a esse universo quase todo feminino, à noite ela transita pelo ambiente machista e hostil das lutas de carneiros, uma versão regional da conhecida e também ilegal luta de galo, em busca de um modo mais rápido de conseguir dinheiro. E é em uma dessas noites que esse universo violento se manifesta também contra ela, quando um dos apostadores não aceita ter perdido e a agride, fazendo com que frature o tornozelo. Sua oportunidade de conquistar seu sonho é ceifada junto com sua voz, que o trauma da violência sofrida leva.
Houria terá então que se adaptar a uma nova realidade em um centro de reabilitação, onde começa a conviver com um grupo heterogêneo de mulheres de diferentes idades e grupos sociais, com realidades diversas, mas todas de algum modo machucadas. Algumas nasceram sem poder falar, outras se calaram como ela por não conseguirem lidar com suas dores e traumas sofridos durante a guerra civil na Argélia, ou em outros acidentes da vida. São mulheres abandonadas por suas famílias, esquecidas socialmente, que foram isoladas por suas deficiências. Ela se torna porta-voz delas através de um projeto de dança, mudando seu sonho individual para um coletivo, como uma maneira de se ajudarem para cicatrizar as dores, aceitar seus lutos e avançar na vida.
O choque do trauma que a emudece é também uma metáfora das mulheres que perdem espaço numa sociedade patriarcal e o direito de ter voz, se expressar, dizer o que pensam, sentem e querem. Ela emudece também porque está em busca de uma nova voz, um novo modo de se expressar, de lidar com as frustrações e sensação de impotência diante do Estado e de uma sociedade injusta que anistiou terroristas e continua não punindo os agressores, onde a voz de uma mulher vale quase nada diante de que dizem os homens. Aos poucos a raiva e a sensação de estar morta por dentro se transformam, e ela vai se reconstruir e criar uma nova linguagem para se expressar através da linguagem de sinais incorporada a um novo modo de dançar.
Apesar de seu tema principal ser denso, “Dançando no Silêncio” se apresenta na maior parte do tempo como um filme luminoso, que abusa da claridade, da luz do sol que entra pelas janelas. O sol está presente também nos desenhos que Sônia faz nos joelhos de Houria, e que são uma metáfora dela vendo a amiga como mulher cheia de luz própria e que vai voltar a sentir seu brilho. Essa leveza é acentuada pelas cenas de dança principalmente na segunda parte do filme, onde não há a rigidez do balé clássico com seus movimentos controlados e a violência das sapatilhas aos pés. Há muita delicadeza e suavidade em como são mostradas as cenas de adaptação de Houria voltando a ter controle dos movimentos de seus pés e sua liberdade para se movimentar, passando para os movimentos nas mãos que se tornam mais livres, agora como o centro de sua nova linguagem.
Importante destacar que “Dançando no Silêncio” se conecta com o filme anterior da diretora, “Papicha”, pelo qual ganhou o César de melhor filme de estreia. Ambos estrelados por Lyna Khoudri, eles abordam a luta das mulheres da Argélia pela liberdade – apesar de todas as dificuldades. Se em seu primeiro longa Meddour fala sobre um grupo de universitárias e suas lutas para poderem se expressar durante a guerra civil, nesse ela traz uma nova geração de mulheres argelinas ligadas pelo fantasma dos anos dessa guerra, mulheres que sobreviveram a diversos traumas, mas que carregam novos sonhos.
“Houria”, título original do filme, além do nome da protagonista, significa liberdade – essa que ela, as outras personagens e as mulheres pelo mundo lutam para ter todos os dias, principalmente de se expressar e sobre seus corpos. Num mundo onde as mulheres têm que a todo tempo defender a autonomia de seus corpos que são tão desrespeitados e violados, mostrá-las dançando é um ato de resistência. A reconstrução e libertação dos corpos machucados psicológica e fisicamente depois do trauma simboliza também a reconstrução da Argélia, e como elas superam os obstáculos impostos para saírem melhores e mais fortes.
A beleza de “Dançando no Silêncio” vem de detalhes como toques, olhares e pequenas sutilezas que deixam a narrativa mais rica e nos entregam o que as palavras não dizem. São também esses detalhes que mostram a força de pequenos gestos para a reconstrução das personagens, para que sigam em frente mesmo com suas dores e cicatrizes. A dança as une, mas também é o que as fortalece, transforma e liberta dos grilhões do passado.
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